A origem do Cão de Castro Laboreiro ninguém a conhece, tudo o que se escreve sobre a sua proveniência é pura ficção, sem qualquer rigor científico ou histórico. Este animal lupóide amastinado, até prova em contrário, nada tem de semelhante, parente muito próximo, com os outros cães existentes na peninsula ibérica (raças conhecidas e outras que venham a ser reconhecidas), para funções parecidas. Como provas de momento apresentamos: Aspecto, comportamento e o único estudo cientifico de genética (MtDNA diversity among four Portuguese autochthonous dog breeds: a fine-scale characterisation), realizado em Portugal, pelo IPATIMUP, onde a singularidade da raça, aliás a única destacada, é bem expressa pelos investigadores. Ver estudo.

A oralidade que ainda hoje é possível recolher em Castro Laboreiro, de que a raça teve vários cruzamentos com o lobo, apesar de não ser comportada por nenhum rigor científico, deve ser levada em conta, valendo tais testemunhos o que valem as fontes orais. O veterinário que produziu o 1º estalão, Manuel Marques, em 1935, ouviu e anotou tal testemunho, com alguma crença à mistura. Precisam-se estudos científicos, para refutar ou provar.

Por tudo isto, consideramos a raça diferente de todas as outras, das mais antigas de Portugal, e deixamos aqui alguns subsídios históricos.
No século XIX, o notável escritor Camilo Castelo Branco, profundo conhecedor do Minho e das suas gentes, no seu livro Brasileira dos Prazins (referindo-se a factos ocorridos por volta de 1845), conhece a raça, e eterniza-a, enaltecendo as suas qualidades de guarda e de fidelidade aos donos.
“…As coronhadas e as intimações ameaçadoras repetiam-se. Uma algazarra de Inferno. Vozes roucas pediam machados e ferros do monte. A Senhorinha, muito esganiçada, expectorava agudos ais na cozinha; não acertava a enfiar o saiote pelo direito. Os cães de Castro Laboreiro, muito ferozes, arremetiam às portas com a dentuça refilada. Porcos grunhiam dando bufidos espavoridos. A moça dos recados chamava a sua Mãe Santíssima e a alma da tia Jacinta do Reimundles, que estava inteira na igreja…”
Nesta altura ainda não existe Canicultura em Portugal,mas os vários registos escritos, já referem claramente o Cão de Castro Laboreiro como raça. Nas raças mais comerciais dos nossos dias, e se tivermos em atenção essa época, tais dados são raros, ou não existem, e por vezes os que são escritos, são puras invenções dos amantes das novas raças, preocupados com a ancestralidade da sua, sem qualquer rigor académico e histórico (basta ler os inúmeros livros que existem sobre raças de cães).
É importante referir que os cães de guarda e/ou pastoreio eram pouco conhecidos fora do seu habitat natural, e raramente eram referidos como raças, em parte devido à enorme heterogeneidade. Normalmente os cães de guarda do gado são sempre descritos como mastins e/ou rafeiros. Em todas as montanhas e planícies da península ibérica existiam cães rafeiros ou mastins a guardar gado. Nos escritos antigos das rotas de transumância estes cães são presença obrigatória.
No século XIX, o Cão de Castro Laboreiro devido à sua singularidade e grande homogeneidade, era já referida como raça velha, apesar do conceito de raça, tal como o hoje o conhecemos, ser bastante recente.
A maior parte das raças de guarda e pastoreio não apresentam registos anteriores a 1900. Muitas foram mesmo criadas pela canicultura, no final do século dezanove (pioneiros: Alemanha e Inglaterra) e já durante o século vinte, normalmente oriundas de populações de cães de trabalho existentes em determinada regiões.
Não existem registos documentais conhecidos sobre a raça Cão de Castro Laboreiro, anteriores a 1800.
Pela sua nobreza e função, vários testemunhos orais e escritos, referem que os Castrejos, vendiam e ofereciam cães com estimado valor, como companhia e guarda para muitas quintas do Minho, ao longo do século dezanove e vinte.
Em 1914 realiza-se o 1º Concurso Tradicional [Rodrigues, Américo: 2002, "Subsídios documentais do cão de Castro Laboreiro"] ou “Prémio” da raça no lugar da vila de Castro Laboreiro. Tal “prémio” continua a realizar-se todos os anos, no dia 15 de Agosto às 14:30, sendo o concurso canino mais antigo, historiado em Portugal. O padre Aníbal Rodrigues, nascido em Castro, defensor acérrimo e apaixonado da raça, patrocinou o concurso tradicional da raça, desde 1954, até ao ano da sua morte (10 de Março de 2003).
O cão fora do seu Solar foi quase sempre animal de trabalho e estimação de gente rica.
Em 1920, o jornal de Castro Laboreiro, "A Neve", publicita anúncios de interessados em comprar cães de Castro Laboreiro, “da verdadeira raça”, como referem.
Em 1935 o veterinário Manuel Marques, pioneiro da canicultura em Portugal, acompanhando as modas da Europa, desloca-se de Lisboa a Castro Laboreiro, elabora e publica o 1º Estalão da raça, provavelmente o documento produzido mais importante para a raça até aos dias de hoje.
A raça encontra-se desde o seu reconhecimento oficial em 1935, pelo Clube dos Caçadores Portugueses, posteriormente Clube Português de Canicultura (CPC), ou em estado crítico ou ameaçada de extinção segundo os parâmetros internacionais da FAO.
A realidade de extinção desta nobre e antiga raça Portuguesa não é de agora, pois sempre foi uma raça pouco conhecida e pouco divulgada no nosso país e no estrangeiro.
Os efectivos do Cão de Castro Laboreiro sofreram um agravamento vertiginoso em termos quantitativos e qualitativos, no solar (fonte única e que parecia inesgotável) a partir da segunda metade da década de setenta, em virtude das transformações sociais, brutais, operadas na freguesia, Castro Laboreiro. A desertificação da região e o abandono da pastorícia tradicional, levou ao quase desaparecimento desta raça autóctone:

  • A população diminuirá drasticamente; Os Castrejos vivem agora nas grandes cidades da Europa e de Portugal. Deixou de haver produção agrícola, gando e pegureiros no monte, e muitas casas estão fechadas na maior parte do ano;
  • A aculturação e o desinteresse provenientes da ignorância de muitos filhos da terra, levaram a aquisição de outras raças de cães e à sua introdução no solar;
  • A quase inexistência de criadores fora de Castro Laboreiro;
  • Os cruzamentos aleatórios com outras raças, quer no solar, quer fora dele, revelaram-se dramáticos para a conservação das caractísticas da raça;
  • A falta de estruturas, recursos humanos especializados, interesse e informação das instituições responsáveis.
    Como consequência disto tudo, os animais “antigos”, das velhas linhas de trabalho começaram a ser escassos e valiosos.
    Nas últimas décadas, aos ataques dos lobos, aos animais existentes (agora gado ao vento, sem pastor), alguns foram respondendo com estricnina, conseguindo os seus intentos bárbaros, mas condenando inexoravelmente o Cão de Castro Laboreiro na sua principal função, o guardião de gados.

    Cães de referência de muitos lugares Castrejos, morreram nos montes e no eido, em envenenamentos provocados por criadores de vacas e cavalos, portugueses e galegos, subsidiados pelo estado português e pela CEE, e noutros perpetrados por caçadores para controlar raposas e aves de rapina. Na memória de todos, estão presentes os ocorridos em 1983, 1986, e já em 2001, 2004 e 2006.

    São poucos os animais vivos de qualidade para reprodutores. Nos últimos anos várias linhagens de referência do solar desapareceram, sem deixar descendência.
    No entanto, os últimos tempos são de esperança. Além de ser património cultural inegável, o Cão de Castro Laboreiro, é um dos maiores ícones da região.
    O Cão de Castro Laboreiro é conhecido pela sua Rusticidade, Carácter e Nobreza, desde tempos idos.